quarta-feira, 26 de julho de 2017

Esqueça os argumentos de antes


 

Quando os campos imaginassem cavalos
 
Esqueça os argumentos de antes
enquanto relatos de viagens evocam o tempo
os campos imaginam cavalos que sopram
suas crinas para trás das terras perdidas
e enterram guerras na direção do futuro
Quando em estado de mansidão os pássaros imaginam
pousar sobre esses cavalos e o campo se abrisse em gerânios
cobres interlúdio de pouso a espiões russos.

Primeira lição de casa passe um estilete
nessa ilha de comunidades indeterminadas
específica e trêmula corteja as voltas
num mapa de cotidiano e carne tudo
onde fronteiras sangras ainda anota
com traços mansos cavalos sonhados.
Os cabelos ao vento nessa aceleração contínua
sem finalidade. Antes que rasgue mais um minuto de meu dia
antes que parta por aquela porta, pela qual
chegaste à ordem propícia para as trocas.
 
 
 
A imagem pode conter: desenho

                     Salvador Dalí
                     L´ Etalon blonc - 1973

Modular a tarde


Vê-la imóvel retendo a fina membrana
aspirando cristais na fala
do mesmo desejo orgânico

Faz-se casulo o arco
quando aquieta o tórax
do pássaro na memória

canta elas frestas do espaço
molda e deforma dual
o crânio seco das pequenas

pétalas ainda sem relíquias
de antepassados não testemunham
o ser que carrega a cidade
em seu ventre.

sábado, 8 de julho de 2017

Jardim do sótão




 
Você evita o rumor dos automóveis silenciando aos corações
fecha as janelas, porta-se como quem aprende

a respirar lentamente, enquanto digo - são todas percepções
do mundo - queríamos o que concentra para que seja
silêncio você ainda paira num embrião misterioso,
pesca do olhar a placenta dos mergulhos mais profundos

Eu às vezes me aproximo dos sinais desencontrados
no meio da rua, numa cidade sem avisos parto,
não me peça, desfaço, corpo teatro mudo de cores
só pergunto: brisa salgada qual terra a mover teus pés?
As patas de mamíferos gigantes, você responde --
parece assim que entramos numa espécie de acordo?


As ilhas mudaram de lugar após a explosão
alçam alguns sinais para um futuro de poemas bélicos
As peças não encaixam no antigo quebra-cabeça
as migalhas do que ficou no ar saboreiam os dentes
de deus eu também tenho-o e suas mãos
ao pousarem nas pedras frias sentem qualquer interlocução?


Você responde, seus olhos parados agora
desaparecem feito a profusão de estrelas que perderam
seu brilho. Noite nenhum porto espelha o céu,
não conte, mas não há imagem pronta para a vida essa
agitação monótona.


Automóveis partem sempre para a chegada
somos esses espectros que caminham para trás?
Embandeiram as chegadas dos desejos mais longínquos
em sanguíneas manchas de mar no corpo

Evitamos os paquetes num apito em retorno
a cidade antiga em que Whitman atravessa
dentro do caminho seguido sem lei
Dentro do coração um pátio próprio para a fuga
Te falaram algo? Como se caminha dentro do poema?

O verde das folhagens confundido com o verde dos olhos,
não importam mais. Nada mais importa, se gastos
estávamos subtrai-se ao que permanece
pelas ruas coloniais,
estaríamos vivos na sombra de nós
entre os passos inventou-se uma saída p

ara os esquecimentos e não havia
mais para onde se ir.


Antes de haver as conspirações com o tempo


 

 

 

 

Antes de haver conspirações ao tempo
cantos veneráveis pousavam
em teu abstrato, morada de Saturno

onde tudo fosse relativo
o outro lado talvez nos espreitasse em sua concretude.
Os segredos encolhiam-se aos pés nas areias
- o mar inteiro dentro da voz - Se venho,
de uma espécie terrestre, é por conhecer a terra
se me confundo com as ostras é
por guardar demasias de sentimentos

numa longa história de furtos as montanhas
E sei que você será como um vulcão
para atar-me aos ares
e que a minha tristeza pode ser
uma pedra a lapidar

da presença do mundo
da crueldade dos seres
microscópicos vivendo em bando.

Por osmose minha pele na tua
como minha mão na tua ou todas
as palavras impuras pronunciadas e também

as não pronunciadas que habitam 
a garganta outras os gestos e outras
ainda os olhares. Viver pode ser isso.

uma espécie de existência contra
as inquietações

Assim os bichos de erguem, saem
calmamente do casulo:
uma explosão
antes o tempo cíclico

bem vivesse dentro do sol
A gôndola da brisa fosse
imensa a desfazer o instante

iniciático ato de vida.
Seus moinhos de vento a respirar
como se a vida mesma
se surpreendesse em sua mesma
existência de viver –
Atravessada a infância com os pés
no chão barro vermelho
por esse caminho
não tivesse compasso para medir

um quadrado que coubesse
na lua, só depois eu inteira desaparecendo

no tempo. E quem sóis?  
Foi o tempo
o vento o cisne dos olhos
um atlas para o avesso do corpo
nos poros da pele rachadura
que finca seios bélicos
ao anúncio do prepúcio.
Não sei se em preto ou branco
névoa que encolhe o real
só sei que se me
perguntasse sobre o amor
teria respostas, mas talvez não
soubesse mais o que fazer com elas.
Porque as conspirações
são sempre guerras silenciosas
e se te roubaram o tempo
é por que jamais ele
houvesse lhe pertencido
Ou por que se não sabes
o caminho sou eu que refaço
sempre o mesmo laço
com a proa apoiada na amurada
para trás – despedidas a terra
sendo aquática – gira a manivela
para falar, desta vez, de humanidade. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A perigosa poesia movediça (Resenha)


 


 

A PERIGOSA POESIA MOVEDIÇA DE MARIA CAROLINA DE BONIS: “PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO”

 

Por Alfredo Monte

 (Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de outubro de 2016)

 
Levei um susto quando li os primeiros versos de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO (Editora Patuá): “Entrar no teatro pelas portas dos fundos/Esperar até que cortinas se fechem/Sentar-se numa cadeira detrás do palco/Baixar os olhos e soletrar um verso/Heroico com as formas de adeus”.  Pareceu-me algo decalcado do universo da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, bastante em voga por aqui, pelo menos nas redes sociais (daqui a pouco, provavelmente surgirão os apócrifos).

Mas era um equívoco, pois Maria Carolina de Bonis apresenta uma voz poética muito própria, exercitando uma poesia “entre duas portas”; (“É cíclico o caminho”; o título já indica esse movimento). Ela parte de um estar-no-mundo, na casa, dos móveis, enfim nas coisas, regredindo a estágios minerais e vegetais, procurando “a origem ágrafa”: (“Chega a hora de nos tornarmos eternos/Como se fosse estranho envelhecermos”); são muitas as imagens de florestas, semeadora, colheita, algas, pedras, grutas, e às vezes temos uma impressão de imagens que se colidem desarmonicamente. Também é preocupante esse “olhar de exílio”, com que dispensa as camadas mais próximas da realidade: (“Vivo/onde as moscas contornam/minha ausência”).

Ao final de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, nos damos  conta de que ele foi pensado não como reunião de poemas, e sim como um livro, o que absorve todas as supostas desarmonias; além disso quanto ao exílio, um diálogo latente perpassa todos os poemas, e ela nos sugere que margens, contornos, estão para ser transbordados e extrapolados: “Sou o contorno do testamento das pátrias/O desterro gutural dos nômades/Gruta movediça que nem em pedra cristaliza/O opaco do chão de terra batida//E uma aldeia para que pudesse inaugurar/Os lugares onde não estou/Soa além do contorno do cão/A invenção da sinceridade”.

Portanto, temos um contra-dizer: “Dizer está sempre fora do que dizemos/o ato se reproduz em deslocamentos/volta antes e me encontro depois/a língua se desdobra fora do contorno ao redor/dos teus lábios lentamente ao redor da sala meus passos”; ou ainda: “Eu não sou o que digo/Mas é como se fosse”; mais um exemplo: “A ida será um regresso/Desse lado, avesso/Do traço em linhas do excesso//Os contornos da carne/Habitando os limites do corpo/O gozo da terra/Teu corpo, agora/Nos guizos do vento”.

Uma das viagens literárias mais interessantes dos últimos tempos é acompanhar Maria Carolina de Bonis, em suas aventuras “Dos fios que se perdem dos fios/Que se atam”.  Tomara que o fio que seguirmos não nos leve para as conclusões inquietantes de Teu retrato: “Hoje meu espelho está vazio//Apanha-me em relances/Conjuga-me em silêncio/E soletra as placentas recolhidas//Ao canto do deserto/Na mesma margem/Que caminha a/Semelhança secando/Meus contornos”.


Alfredo Monte - Blog literário

Resenha "Passos ao redor do teu canto"


                     Resenha “Passos ao redor do teu canto” por Raquel Naveira


A citação de Osman Lins, que abre o livro Passos ao redor do teu canto, de M. Carolina De Bonis, começa assim: “O que repousa invisível, sob nossos passos: colunas, deuses esquecidos, tíbias ancestrais, minérios, fósseis, impérios em silêncio.” Estão aí as pistas por onde percorrerão os passos dessa poeta andarilha, cujo périplo sempre a fará retornar à sua morada interior, à sua casa, à sua ilha de Ítaca.

Aonde levam afinal os nossos passos? Quando entramos, por exemplo, num teatro pela porta do fundo procurando saber o que se oculta atrás do palco, das encenações, dos bastidores, o que encontraremos? Essa é uma busca de mistérios perdidos nos labirintos da memória.

 Damos os passos com os pés, “pés úmidos/arrastados pelas ruas”, “pés que tentam as noites por debaixo dos lençóis.” Caminhamos sozinhos sobre nossos pés ao redor do mundo, da sala, do lixo de nós mesmos, de nosso exílio.

Tudo está a “dois passos do que tem sido”. Momentos entre portas abertas, entre dois polos. Entre a infância e a maturidade. Entre a primavera e o outono. Entre a areia e o mar.

No poema que dá título ao livro, M. Carolina escreve: “Os amores se  insinuavam aos meus passos”. Passos que trazem perdas secretas. A alma anseia sempre pelo regresso: “Voltaríamos para a casa seguros./ Haveria volta nessa mesma hora/Haveria casa nessa mesma hora.” Lindo.

A poeta assume que os passos, embora firmes, são frágeis, caminham por pedras indiferentes. As nuvens ficam nuas enquanto ela ouve “música de pisares” e atravessa, ao viés do vento, como uma bailarina na ponta dos pés, entre capim e lírios.

Há fixação pelo espaço branco nunca antes palmilhado, pelas espumas e malhas fluídas das cascatas nos rios, pelo deserto, pela fronteira, pela outra margem, pelas casas onde morou na cidade, tão urbana e selvagem

Uma palavra para o projeto gráfico, diagramação e ilustrações de Leonardo Mathias: mandalas poderosas, marcantes, de flores, tambores, corpos humanos, filigranas de borboletas em mão espalmada. O toque lilás sob contornos negros.

De forma curativa, buscando o autoconhecimento, base de todo edifício espiritual e a partir das palavras de Osman Lins, que pressente sob nossos passos o rolar das estações dentro de uma estação mais ampla, M. Carolina De Bonis faz uma caminhada ao redor de seu canto. Vai para fora do dia, desperta do sono, em busca de perenidade e de feridas cicatrizadas em sua vida e na arqueologia de seus antepassados. Funda gerações.

 

 

 RAQUEL NAVEIRA é escritora, professora, crítica literária, autora de vários livros de poemas, ensaios, infanto-juvenis e romance. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e ao PEN Clube do Brasil.



 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Despertava as águas


Despertava as águas

 
Despertava as águas o corpo derramava
perdia-se o contorno da pele e habitava a fronteira
do insuspeito. Todas as madrugadas
entorna um copo de água sente azulejos
espreguiçadeiras sem dar-se o nome
ao instante chamado na terceira presença
Nem fosse você nem eu quem acordou
com o nome da boca por onde as fases do rio
enchem ao que sobra arranja no assobio uma música baixinha
a dar vazante, os lábios tremendo tremendo quase desistindo diluindo
a letra esguia de uma carta proibida de um gemido ou ruídos
de alguém chamando repetidamente, os chamados de ajuda
a uma grande explosão. Antes das manhãs
quase sempre os caminhões de lixo e as rádios adotam estações fantasmas
A sala ainda guarda um piano mudo e gavetas inacessíveis
sem reconhecer a noite olhava pela janela um filete de luz
já não reconheceria nem a cidade, ainda bem dentro
saberia da prata de toda lua
somente ao despertar as águas.



 

O mar inteiro dentro da voz soletra sóis e chora como quem derrama cântaros


Na escuta de outros rumores

 

 

 

(o que se faz escuta de outros rumores
se inventa nos sonhos mais antigos).

 
Ao segurar uma lupa confere
Entre sombras essa matéria
De efêmero.

Aproximas aos sinais da terra
O nome a qualquer profecia
De futuro.

 Poderíamos nos agarrar em raios de sol
Vestidos de capas azuis celestes
A estampar em avenidas
Os sons desgarrados

 Entre o saber e o medo, uma saída
Aos abandonados
Aos que silenciam no olhar
O que percebe que entre a relva
Adormecem os sons os sonhos
As selvas e os gestos recolhidos
Por qualquer estação da existência.

Alguém ao longe ecoasse: fosse
Em tempo de colheitas
As semeaduras do estágio
Anterior a fragilidade.

Mas o futuro em flauta
Ascende na andança
Trajado de árabe mouro
Galopando mui eloquente
Desfiando em punho
A espada do destino a lança

Sobre o gesto e dança
O sinal da linguagem
Em consciência onde a palavra
Toma forma e desfaz
Da matéria iniciática

O seu percurso de borboleta
Negra metamorfoseada
Em asas andaluz refletidas
Em azuis, em dois olhos

A aprender a ciência secreta
A sombria névoa dos animais
Desgarrados do bando
Sozinhos, nômades, ao sol.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Aprendizagens do dia


 

                                                               Ilustração Leonardo Mathias


 

Tudo se instala sobre a névoa
Da chuva de um tédio ou mais um dia
Sem qualquer aprendizagem.
Se encolhe lentamente sobre as almofadas
No modo a escolher algum animal marinho
A se parecer com seus pés úmidos
Arrastados pelas ruas, mas ontem,
Hoje, o nome lhe arqueja fósseis presentes
Ou a respiração de uma lula gigante
Mas não é nada ou são os sons minúsculos
Pingos que soletrassem a suspeita de
Alguma visita lhe trazer o passado por
Essa porta. A vida dos peixes se encolhe
Diante de um mar radioativo, seus pés
Tentaram as noites por debaixo dos lençóis
Sem qualquer movimento rápido.
Ela tenta se desfazer dos pequenos ventos
Do que a névoa não detém: aparições
Desfazer do que a vida não dá conta:
Essa infância interminável como lanças
De polvos destoando os objetos da casa:
A escrivaninha herdada, a boca esse vocábulo
De pântanos seu céu em estalos
Balbucia, mas é silêncio,
Convence ao que rebrilha nas frestas
Do fundo do mar, da névoa
Da chuva ou do cigarro
Do corpo que se move no duplo
Sendo-o na senda insuspeita
Dos objetos que lavram
Palavra vida
À concessão das pedras
Das grutas feitas apenas
Ao derramamento.












sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Orelha de livro











Passos ao redor do teu canto

Nesse livro, o poema cria uma dimensão de matéria e memória. De forma não linear, por meio de voos, mergulhos e aparições, refaz uma superfície antiga de uma paisagem primária, da procura por um instante poético original, onde ecoam rumores dos passos ao avesso, como se pousassem ao encontro de tudo ao que é nômade e decompõe.

Ao longo dos poemas, como passos primeiramente mais amplos, pela veia submersa da memória, esses curvilíneos fazem voltas na palavra para abrirem a cena e torná-la mais rara, condensada. Não se fala por meio de um ser poético, mas da conjunção com o outro, com as imagens da vida: “do corpo que se move no duplo/ sendo-o na senda insuspeita/ dos objetos que lavram palavra vida/ à concessão das pedras/ das grutas feitas apenas/ ao derramamento”. Nesse percurso, a imagem condensa uma semântica que perpassa como uma áurea do sentimento de continuidade, mesmo quando pousa em outros territórios, em outras terras, num fluxo aquático e sanguíneo, respira ao abrir novas camadas de realidade. Até que as águas modulem a voz ao simbólico, como se todo mar desaguasse na garganta e esse elo do real desfizesse a corda da matéria: “Curva-se a rasgarmos fluída/ a memória do mar, cada sílaba/ de água invadida das formas/ finas de caligrafia”. E a voz modula-se pelas letras, são as caligrafias nos lembrando, por fim, que é a linguagem que nos faz humanos e caminharemos num “tempo imóvel/ suspenso das coisas que passam/ das criaturas que passam/ na verdade que possa expressar/ que a verdade do ser é ter-sido”.  

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

E se deixou levar



Tocou num átomo cinzel de estrelas
Desfaz a alma sitiada num átimo de luz
E alumia, mas meu coração em metal
Acelerado acordado nos acordes dessa trama

Desfaz o laço da alma no papel
E soluça sem solução
O que refaz sua trama (na cama)

O desengano não se engana, prata de alumínio
A transplantar meus sentimentos
Para onde? Para a aura de uma anjo torto
Ao que veio? Amar

Toca antena luz
No coração dos peixes submersos
E do sobrenatural toca a alma
De outro mar. 

Esqueça os argumentos de antes

  Quando os campos imaginassem cavalos   Esqueça os argumentos de antes e nquanto relatos de viagens evocam o tempo o s...